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sábado, 12 de março de 2016

PONTE DA PEDRA - MONUMENTO NACIONAL



Foto aérea - Henry Richard

Quem circula na E.N. nº 206, entre Bouça e Torre de Dona Chama, a cerca de 3 Km a Oeste desta Vila, não fica indiferente à existência de uma ponte cuja ancestralidade se revela no granito dos seus arcos ou na reduzida largura do seu tabuleiro.

Tabuleiro actual - Foto António Reimão

Todavia, o viajante menos atento poderá não se aperceber que está a atravessar uma ponte milenar, de origem romana e classificada como monumento nacional.
A Ponte da Pedra foi classificada como monumento nacional pelo Decreto n.º 28/82, DR, I Série, n.º 47, de 26-02-1982.
Trata-se, portanto, de uma classificação relativamente recente.
Tal facto resulta da circunstância de, durante muitos anos, se duvidar, ou ignorar, que a ponte tivesse origem romana.
Embora já o Abade de Baçal se referisse à romanidade da Ponte da Pedra, deveu-se provavelmente a António Maria Mourinho a classificação da Ponte como monumento nacional de origem romana.
Em 1978, no seu artigo “Ponte romana no rio Tuela e síntese das vias e pontes romanas no nordeste transmontano”, in Trabalhos de Antropologia e Etnologia, Porto, escrevia António Maria Mourinho:
No ano de 1977, regressava eu pela estrada de Valpaços a Bragança, pela Torre de Dona Chama e notei, a três quilómetros desta antiga vila, ao enfrentar o rio Tuela que as aduelas da ponte que o atravessa, sob a mesma via, eram semelhantes aos da Ponte de Chaves e da Ponte de Salamanca sobre o rio Tormes (…). 
Desço ao rio e vejo nos extremos dos arcos que são seis, dois grandes viadutos quadrados, para o escoamento das águas nas grandes enchentes e verifico no interior do primeiro arco e logo em todos, as fissuras longitudinais do «forfex», no centro dos silhares, em toda a dimensão inferior dos arcos. Na extremidade poente, abrem-se outros quatro viadutos, como os do lado nascente. (…)

Marcas Forfex - Foto António Reimão

Nota-se perfeitamente que foi aproveitada toda a estrutura arquitectural central dos arcos e suas ligaduras muito resistentes (…). (…)
A PONTE DA PEDRA da Torre de Dona Chama (…) é uma ponte romana, bem conservada na sua origem, (…) a qual embora e pertencendo e servindo actualmente à Junta Autónoma de Estradas, como rodovia de trânsito actualizado, deve a Direcção Geral do Património Nacional diligenciar que seja classificada de MONUMENTO NACIONAL ROMANO, e inscrevê-la no respectivo catálogo e procurar junto da mesma Junta Autónoma de Estradas a sua preservação e conservação, sobretudo na parte original romana”.
E, efectivamente, poucos anos depois, a Ponte da Pedra era classificada como monumento nacional, como é aqui documentado num ofício intergovernamental da época.

Doc. SIPA

As vias de comunicação foram sempre, ao longo do tempo, da maior importância e utilidade para o progresso da humanidade.
As vias romanas, em particular, utilizadas por Roma como instrumento que permitiu estender a sua cultura a todos os territórios conquistados, tiveram um papel fundamental no que hoje se designa como a civilização ocidental.
É difícil de imaginar o que seria o desenvolvimento cultural e material dos povos e lugares, por onde os romanos passaram, se não tivessem existido as vias romanas.
Quando, dois mil anos mais tarde, se continua a ouvir na boca de toda a gente a expressão “todos os caminhos conduzem a Roma”, tal é apenas o reflexo de que as vias romanas foram o cordão umbilical do Império.
O documento mais interessante que nos chegou até nós sobre as estradas romanas consiste numa relação delas, com indicação das mansiones percorridas e as distâncias entre elas: trata-se de um itinerário escrito, cuja origem, autoria e datação permanecem controvertidas, chamado Itinerarium Provinciarium Antonini Augusti.

Vias  Augustas

De entre as vias que percorriam o actual espaço geográfico nacional, a chamada Via XVII, que ligava Bracara Augusta (actual Braga) a Asturica (actual Astorga, Comunidade Autónoma de Castela Leão, Espanha), é a mais antiga do noroeste peninsular, como é atestado por vários miliários atribuídos a Augusto, datados entre os anos 5 e 2 a.C..
O traçado provável de tal via foi, ao longo dos tempos, objecto de estudos sectoriais, procurando identificar as mansiones intercalares e os percursos entre as mesmas.
De todas as mansiones intercalares, aquela sobre que já não recaem quaisquer incertezas, é Ad Aquas, depois Aqua Flaviae, a actual Chaves, onde se situa a conhecida Ponte de Trajano, construída entre finais do século I e inícios do século II d.C., durante o processo de romanização da região, coincidindo com a vigência do imperador Marco Ulpio Trajano.
Apesar de discutir a existência de possíveis variantes, Colmenero, descreve assim a via XVII, na zona da Ponte da Pedra:
Desde Val de Gouvinhas, a calzada avanzaba case en liña recta cara á ponte romana da Torre de Dona Chama, desde onde, polo norte e sen toca-la poboación deste nome, ascendería, pola suave ladeira alí existente, camiño da aldea de Lamalonga, onde foron atopados outros dous miliarios (nos. 115, 116), segundo se verá.
Avanzaría seguidamente por Agrochao, Penhas Juntas e Edrosa para, unha vez superada esa poboación, torcer á esquerda e encaixarse maxistralmente pola ladeira oriental da depresión que baixa ata Nunes, aldea que tocaría, polo leste, no seu percorrido, e avanzar despois, ou polo trazado da moderna estrada cara a Vinhais”.
Da existência de outros marcos miliários, encontrados perto de Torre de Dona Chama, mormente na zona de Vila Nova da Rainha, se dá conta em recentes estudos realizados nos concelhos de Macedo de Cavaleiros e Vinhais.
O aparecimento de marcos miliários é tido como decisivo sobre a existência, nas suas imediações das vias romanas.

Miliário - Vila Nova da Raínha

Manuel Duran Fuentes, o maior especialista ibérico em pontes romanas, na sua tese de doutoramento, estudou em pormenor, entre outras, a Ponte da Pedra.
Para além de defender que a mesma era integrante da Via XVII, salienta, sem margem para dúvidas, as suas características romanas.
O facto da Ponte da Pedra ter origem romana e conservar intactas muitas das suas características, designadamente os seus arcos, não invalida que tenha sido, como outras (assim aconteceu com a de Trajano), sujeita a reparações e modificações, ao longo dos tempos.
Assim, os talha-mares não são originais, pois se percebe que foram encostados à estrutura mais antiga.
Do mesmo modo, Manuel Duran Fuentes identifica a alteração do pavimento que, a quando da adaptação da ponte à estrutura rodoviária da E.N. 206, tornou o original traçado ligeiramente abaulado, num tabuleiro praticamente horizontal.
Historicamente é ainda conhecida o restauro ocorrido, durante a dinastia filipina, mais propriamente, próximo de 1635, no reinado de Filipe III (IV de Espanha).
A ela se refere SOUSA VITERBO (Dicionário Histórico e Documental dos Arquitectos, Engenheiros e Construtores Portugueses, Vol. I, Imprensa Nacional Casa da Moeda, Lisboa, s/d, pp. 491):
Gonçalo de Aguiar arrematou tambem por 2:500 cruzados a obra da ponte do rio da villa de D. Chama. Filipe III, por provisão de 4 de janeiro de 1635, mandou lançar finta da dita quantia para esta construcção. (Filipe III, Doações, liv. 40, fl. 17)”.

Filipe III, Doacções, Liv. 40, Fls. 17 - ANTT

Consultando a fonte primária citada, verifica-se que a razão da preocupação do monarca residia no facto da Ponte da Pedra, que se encontrava num estado degradado, servir de passagem para o Reino da Galiza.
Por isso justificava que lançasse a dita finta (leia-se imposto) sobre os moradores dos lugares, não só da comarca de Moncorvo (à qual a Torre de Dona Chama estava ligada administrativamente), mas também das comarcas das cidades da Guarda, Viseu, Lamego, Porto, Miranda e “vila de Guimarães”.
A amplitude da finta demonstra, sem sombra de dúvida, a importância regional que a Ponte da Pedra mantinha por esta altura.
Importância que também se estendia à própria Vila, designadamente, por força da preponderância que as suas feiras tinham no comércio regional e mesmo nacional.
Já após a sua classificação como monumento nacional, a Ponte da Pedra foi alvo de algumas reparações no ano de 1995, levadas a cabo pela Junta Autónoma de Estradas.
Ao que julgamos saber, a intervenção, que durou cerca de um ano, debruçou-se sobretudo sobre a consolidação das fundações que apresentavam problemas resultantes do curso do Tuela.
Já em 2007, foram realizados trabalhos arqueológicos na área da Ponte da Pedra.
Segundo o site respectivo, tais trabalhos consistiram na “Desmatação e limpeza sumária da estrutura associada a uma provável mutatio. Desmatação e limpeza sumária do muro Sul que ladeia o caminho tendo em conta que o muro Norte se encontra muito destruído e apresentava aparentemente uma construção recente. Registo fotográfico do muro nos locais onde se pôde constatar a existência de elementos pétreos de origem romana e/ou medieval. Execução de sondagens de 20 em 20 metros. Continuação das sondagens onde fossem detectados prováveis vestígios da via romana”.
Em qualquer caso, “Os trabalhos de escavação indicaram a presença de um caminho antigo que face às suas características poderá corresponder a um caminho romano. No entanto, a inexistência de materiais dificulta uma atribuição cronológica mais precisa”.
Tais trabalhos não foram, portanto, conclusivos, mas a existência de elementos pétreos, possivelmente romanos, deixa a possibilidade da realização de novas sondagens que confirmem a existência da Via XVII de que a Ponte da Pedra faria parte.
A Ponte da Pedra da Torre de Dona Chama é um monumento nacional, de origem romana, que esteve integrado na rede viária romana, na chamada Via XVII de Antonino.
Actualmente ao serviço da rede viária nacional, servindo a E.N. 236 para transpor o Rio Tuela, permanece ainda quase incógnita, mas é inegável a sua importância como lugar histórico de interesse turístico, capaz, integrado num percurso mais vasto que englobe o demais património imóvel e móvel, de promover de forma sustentada a Torre de Dona Chama.

Arcos centrais - Foto António Reimão

Com a dignidade que a classificação de monumento nacional lhe deveria dar, seria exigível que fosse dispensada do esforço de servir a rede viária, promovendo-a e dignificando-a como imóvel milenar, exemplo digno da romanização em Portugal.
Como os ventos económico-financeiros não estão de feição para tal pretensão, impõe-se, pelo menos, a implantação de uma zona especial de protecção, que impeça atentados à sua estrutura e promova a sua preservação.
A associação Dona Flâmula estará atenta e tudo fará para dignificar esta obra de arte milenar cuja qualidade construtiva permitiu que seja hoje, porventura, uma das mais antigas pontes do mundo ainda afecta ao trânsito rodoviário.


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